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segunda-feira, 18 de março de 2013 Debates | 20:27

O mito da tabela fácil

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“A tabela do (insira clube aqui) é fácil”. No quarto final da temporada, quando os objetivos das equipes já estão bem definidos, são comuns as projeções baseadas nos adversários até a última rodada. Entretanto, a Premier League costuma desmentir essas previsões quando elas consideram apenas a posição que o time ocupa. O Wigan de 2011-12 escapou do rebaixamento porque venceu sete das últimas nove partidas e frustrou, por exemplo, o Manchester United na luta pelo título.

A oito rodadas do fim do campeonato, está de volta a armadilha da “tabela fácil”. O Wigan de Roberto Martínez, embora seja o 18º colocado, é novamente um dos adversários mais traiçoeiros neste período da temporada. A estrutura do time é muito semelhante à que chocou a Inglaterra no ano passado, no 3-4-3. A maior diferença certamente é a presença de Arouna Koné em vez de Victor Moses. A equipe perdeu velocidade e disciplina tática no lado direito, mas ganhou poder de finalização. Koné marcou o gol da fundamental vitória de ontem sobre o Newcastle e traduziu o espírito destemido dos Latics: “eu não tinha chuteiras até os 12 anos, então não me preocupo com rebaixamento”.

Outro adversário perigoso nas rodadas finais é o 16º colocado Southampton, que derrotou o Liverpool por 3 a 1 no sábado. Foi incontestável o domínio dos Saints contra um dos melhores times de 2013 na Premier League. É preciso reconhecer que Mauricio Pochettino não quis inventar a roda e faz trabalho correto, mas o Southampton já jogava com essa intensidade nas últimas semanas de Nigel Adkins no clube. O 4-2-3-1, com Rodriguez, Ramírez e Lallana no suporte a Lambert, tem sido capaz de pressionar e obter ótimos resultados contra equipes poderosas. A também categórica vitória por 3 a 1 sobre o Manchester City, há pouco mais de um mês, é outro exemplo de atuação dominante.

Berbatov tem a aparência e a autoconfiança de Sheldon Cooper, de "The Big Bang Theory"

Na chamada “tabela de forma” da Premier League, para a qual contam os seis resultados mais recentes, o Fulham está na quarta posição. Apático em outros momentos da temporada, o time de Martin Jol enfim compensa as perdas no meio-campo (Murphy, Dembele e Dempsey, que também jogava avançado) com solidez defensiva e precisão no ataque. O desempenho na vitória por 1 a 0 sobre o Tottenham no norte de Londres resumiu o Fulham de 2013: parou Bale e matou o jogo com Berbatov, que marcou em três partidas consecutivas e ajudou a levar os Cottagers à décima posição.

Ao contrário do que sugere a tabela, o adversário mais simples que alguém pode enfrentar não é o Queens Park Rangers, ainda na lanterna da liga. Tem sido bem pior o nível apresentado pelo Sunderland, provavelmente a grande decepção do ano por conta da alta expectativa sobre a primeira temporada completa de Martin O’Neill no clube. A formação com Adam Johnson, Sessegnon, Graham e Fletcher é incrivelmente travada – contra o Norwich, foram 60 minutos com um jogador a mais para marcar apenas um gol, de pênalti, e não sair do empate em casa. Com quatro derrotas e dois empates nas últimas seis rodadas, o Sunderland está em 15º, mas é o pior time da liga exatamente agora.

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sábado, 9 de março de 2013 Liverpool, Tottenham | 16:42

Bale x Suárez

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Nos primeiros meses da temporada, Gareth Bale e Luis Suárez eram criticados por conta dos excessivos “mergulhos”, que ocupavam mais páginas de jornal do que o talento deles. A dupla não perdeu repentinamente o hábito de tentar ganhar faltas, mas a discussão agora é bem mais relevante. Com a queda recente de Robin van Persie, que precisa descansar (não participou de apenas duas partidas da liga até agora), a sensação é de que o galês e o uruguaio disputam, sem outros rivais, o prêmio de Jogador do Ano na Inglaterra.

Pedigree galês

Disputam o prêmio e têm “confronto direto” amanhã, às 13h de Brasília, quando o Liverpool receberá o Tottenham. O melhor cabo eleitoral de Bale, que levou o prêmio há dois anos, é a brilhante campanha dos Spurs, na terceira posição e em curva ascendente. O time de AVB só melhora, e a influência do galês sobre essa evolução é inegável. Bale marcou 10 dos últimos 15 gols do Tottenham e resgatou a fase do segundo semestre de 2010, com direito a números melhores e sequências mais consistentes de ótimas atuações.

No entanto, é injusta a referência ao Tottenham como one-man team. Além dos outros destaques individuais (Vertonghen e Dembele, por exemplo, foram excelentes contratações), as virtudes coletivas ajudam Bale a brilhar. Não é coincidência que o melhor momento dele seja simultâneo ao amadurecimento do trabalho de AVB. O galês de fato decide jogos, mas a equipe permite que isso aconteça mais frequentemente.

Como escreve Jonathan Wilson, a formação mais compacta dos Spurs beneficia o número 11, que sempre tem diversas opções de passe. Geralmente, essas opções ocupam os defensores adversários, e o galês ganha espaço para decidir por conta própria. Não por acaso, Bale marca tantos gols, mas tem apenas uma assistência no campeonato. Vale lembrar que o Tottenham passou por uma crise no ataque enquanto Adebayor estava na Copa Africana de Nações, e Defoe tinha problemas físicos. Bale resolveu.

El Pistolero

Há algum tempo, o craque de 21 gols na temporada era tratado como possível moeda de troca para contratar Stewart Downing e, acredite, defensor flop. Mas, quando falamos de progresso, não podemos esquecer Suárez. A genialidade do uruguaio é conhecida desde a época de Ajax, porém esta é a primeira temporada da Premier League em que ele consegue associá-la a uma eficiência espantosa. O número 7 do Liverpool, impreciso até o ano passado, já ganhou dois troféus de artilharia em 2012-13: foi o primeiro a marcar 10 e 20 gols (foto ao lado). Hoje, é o goleador da liga com 21 (são 28 por todas as competições).

Suárez é perfeito para o sistema de Brendan Rodgers, mas as condições oferecidas a ele não eram as ideais na primeira metade da temporada. Mais adaptado a circular pelo campo com liberdade, o uruguaio foi o único atacante saudável do Liverpool de setembro a janeiro e teve de ser referência. Em algumas rodadas, o 4-3-3 (às vezes 4-2-3-1) de Rodgers tinha nas pontas Sterling e Suso, dois talentos, mas que estavam na academia de formação dos Reds até o ano passado. Suárez assumiu a responsabilidade e atingiu um status que, entre jogadores não formados em Anfield, é incomparável nas últimas duas décadas.

Agora é diferente. Com as contratações de Coutinho e Sturridge, Suárez atua como “número 10”, pode explorar sua criatividade sem deixar de finalizar e sempre tem opções de passe que dão sequência a suas jogadas. Não à toa, o Liverpool melhorou. Mesmo que, em situação mais favorável, ele tenha sido brilhante nas últimas rodadas, é impossível afirmar que este é o melhor momento do uruguaio. Não há melhor momento: a temporada inteira é fantástica. Em relação a Bale, no campeonato, Suárez marcou mais gols (21 x 16), tem mais assistências (6 x 1) e criou mais chances (78 x 57). Por enquanto, é o Jogador do Ano.

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quarta-feira, 6 de março de 2013 Copas Europeias, Man Utd | 08:57

Do kung-fu a Modric

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Acabou para o Manchester United. E está acabando para a Inglaterra, que, na Champions League, deve ter apenas a despedida do Arsenal em Munique e a honra de sediar a decisão. A provável ausência de representantes ingleses nas quartas de final é a sequência natural do que foi discutido no blog em dezembro do ano passado. No entanto, como até José Mourinho admitiu (“o melhor time perdeu”), os Red Devils poderiam ter derrubado o Real Madrid. O blog enumera cinco episódios que determinaram a derrota por 2 a 1 e a eliminação do United em Old Trafford:

Ferguson dispensou a entrevista coletiva após o jogo. Não é difícil entender por quê

A expulsão de Nani. O lance capital do confronto, mais do que qualquer um dos cinco gols. Sem intenção, Nani aplicou em Arbeloa um golpe de kung-fu e foi expulso pelo árbitro Cuneyt Cakir, que, enquanto o português estava deitado, teve alguns segundos para pensar no que faria. Um cartão amarelo teria punido Nani com correção, condenando a imprudência sem ignorar o caráter acidental do lance. Até a expulsão, o United controlava bem o jogo e não dava sinais de que sofreria gols.

A ausência de Jones. O quebra-galho do elenco, que perdeu por lesão a partida decisiva, teria sido importante demais. Não apenas para assessorar Rafael no combate a Ronaldo, sua principal função no jogo de Madrid, mas especialmente para fechar espaços e oferecer mais energia depois da expulsão de Nani. Alonso, Modric, Özil e Kaká circulavam à vontade contra meio-campistas desgastados e sem a força de Jones, que, como Sam Allardyce descobriu há duas temporadas no Blackburn, é capaz de proteger muito bem a área.

A apatia de van Persie. Ainda que a fase não seja brilhante, o holandês poderia ter feito mais no confronto. Na primeira partida, faltou a precisão habitual quando ele perdeu uma oportunidade clara diante de Diego López. Na segunda, faltou tudo a van Persie, que se aproximou bastante de sua versão pálida da Euro 2012.

A decisão de Ferguson. Ferguson relegou Rooney ao banco com o argumento de que Welbeck seria mais eficiente em atrapalhar Xabi Alonso. De fato, Welbeck foi enérgico sem a bola e limitou a passes burocráticos o articulador do Real Madrid, que costuma ser letal nos lançamentos. Mas Rooney vive ótima fase técnica e, embora não tenha o fôlego de Welbeck, também está habituado a cumprir papéis defensivos que contrariem sua “natureza”. Teria sido mais simples perseguir Alonso do que fechar o lado direito, como no primeiro jogo. É inevitável pensar na falta que Rooney fez nos momentos em que o United dominava. Não aproveitar Kagawa, que vinha de hat-trick no sábado, foi outra opção questionável.

A entrada de Modric. O ex-dínamo do Tottenham ainda não encontrou espaço no sistema de Mourinho, que mantém Khedira e Özil nas posições que ele poderia ocupar. Mas a atmosfera de um estádio inglês fez bem ao croata, um dos grandes da Premier League até a temporada passada. Chamado logo após a expulsão de Nani, Modric mostrou seu repertório em meia hora. Além do gol que pôs o Real Madrid em situação favorável, os passes precisos e a excelente movimentação minaram o sistema defensivo do United. Foi o melhor do jogo.

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013 Chelsea | 23:39

O brinquedo de Roman

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Rafael Benítez lavou as mãos. Após eliminar o Middlesbrough da FA Cup, o (ainda) técnico do Chelsea reclamou de tudo, desde os torcedores que o perseguem até o título de “interino”, atribuído a ele em cada esquina da Inglaterra. Está sempre lá, na escalação do Chelsea apresentada pela transmissão da Premier League: Rafael Benítez, interim manager. O espanhol também confirmou – como se precisasse – que não estará em Stamford Bridge em 2013-14. A temporada do Chelsea é um desastre.

Os títulos conquistados por Roberto Di Matteo na temporada passada reforçaram a ideia de que a política trituradora de técnicos (segundo a qual todos eles são, por essência, interinos) promovida por Roman Abramovich é um sucesso. Pode não ser lucrativa por conta dos infinitos pagamentos a que os treinadores demitidos têm direito, mas é um sucesso do ponto de vista esportivo. É?

Aproveitamento do Chelsea na Premier League durante a era Abramovich

Não é. Apesar do título da Champions League, o Chelsea claramente regride (veja o gráfico ao lado) no campeonato nacional, índice mais preciso para avaliar o desenvolvimento de um clube. Desde 2010, ano do último título, a equipe não supera o aproveitamento da primeira temporada de Abramovich, quando Claudio Ranieri ainda era o técnico e escalava Geremi, Gronkjaer e Mutu. Em relação às campanhas de José Mourinho (2004-07), existe um abismo constrangedor.

Sobretudo nos últimos anos, Abramovich raramente delega decisões estratégicas a um treinador. A autossuficiência do proprietário ficou evidente no último verão. Parte do planejamento para a temporada – incluindo a contratação de Eden Hazard – foi feita enquanto o Chelsea estava sem técnico. Di Matteo assinou um contrato de dois anos (que foram cinco meses) apenas em 13 de junho, quase um mês depois do título da Champions.

É impossível associar o Chelsea a uma filosofia de futebol. Abramovich se declara admirador do “jogo bonito” (com todas as restrições que a expressão merece) e sonha há anos com Guardiola, mas sempre contratou treinadores de perfil pragmático, como Mourinho, Scolari, Ancelotti e Di Matteo. Villas-Boas, deteriorado na temporada de pior aproveitamento na era Abramovich, é a exceção que confirma a regra.

O Chelsea vive um período de transição, de substituição de figuras históricas, mas o processo não é bem conduzido. O agora quarto colocado da Premier League nem sequer ameaça lutar por um título que, a despeito de todo o investimento, ficará ainda mais distante caso Abramovich continue tratando o clube como um brinquedo. O Chelsea precisa de uma ideia e de um Jurgen Klopp (por uma série de motivos que podem ser discutidos outro dia, o técnico ideal) para aplicá-la, com a autonomia e a estabilidade que inexistem em Stamford Bridge há muito tempo, bem antes de Benítez chutar o balde.

Mas também precisa recuperar sua imagem, péssima no mercado de técnicos. Na temporada passada, Brendan Rodgers rejeitou prontamente a hipótese de treinar o Chelsea. “Estou tentando construir uma carreira, não destruí-la”, afirmou o então manager do Swansea, que já trabalhou na base dos Blues. O próprio Klopp afastou essa possibilidade para o próximo ano. Se quiser ter alternativas ao velho amigo José Mourinho, que parece ser a única opção viável para 2013-14, Abramovich deve assumir o compromisso de mudar e provar isso para todo mundo.

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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013 Swansea | 11:19

Mestre Laudrup

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Laudrup exibe sua maior conquista como treinador

A conquista da Copa da Liga pelo Swansea não foi milagrosa, acidental. O primeiro grande título da história dos cisnes é um prêmio ao excepcional trabalho executado – para estabelecer um marco – há oito temporadas, desde a mudança para o Liberty Stadium. É o título de Britton, que representou o clube nas quatro divisões profissionais do futebol inglês, e Michu, símbolo do progresso do Swansea.

A goleada por 5 a 0 sobre o Bradford na final reforça também a importância do técnico Michael Laudrup. Embora seja herdeiro de ótimos trabalhos, particularmente o de Brendan Rodgers, o dinamarquês reconstruiu o elenco e acrescentou ao time as qualidades que o levaram a Wembley. Michu tenta convencê-lo a ficar em Gales, mas parece evidente que Laudrup tem virtudes para treinar qualquer clube:

Mentalidade vencedora. Em série de documentários sobre grandes jogadores produzida pela ESPN, Laudrup explicou por que trocou o Barcelona pelo Real Madrid em 1994. A saída era atribuída a desentendimentos com Johan Cruyff, técnico blaugrana, mas ele garantiu que a única razão foi a perspectiva de sucesso. Na versão de Laudrup, o Barça sofreria um déficit de motivação em 1994-95, pois vinha de quatro títulos consecutivos e tinha jogadores como Romário e Stoichkov, destaques da Copa do Mundo que sofreriam uma “queda natural” de desempenho. Ele estava certo. O Real Madrid foi campeão espanhol e derrotou o Barcelona por 5 a 0 durante a campanha. Como treinador, também já é possível perceber que nada atrai Laudrup mais do que a vitória.

Visão de mercado. Laudrup buscou três jogadores com quem havia trabalhado em Mallorca e Getafe: Chico Flores, De Guzmán e Pablo Hernández, que preencheram perfeitamente os buracos do elenco. Em entrevista ao espanhol El País, ele foi questionado sobre Michu. O dinamarquês relatou que o aspecto fundamental para a contratação foi a conversa com pessoas próximas ao então meia-atacante do Rayo Vallecano, que pudessem falar sobre a personalidade dele. Alguns telefonemas, e você faz o negócio do ano na Inglaterra.

Sagacidade. O blog já tratou dos ajustes que transformaram o Swansea num time mais seguro e objetivo em relação à temporada passada. Na decisão, Laudrup também foi preciso. Sem o lesionado Chico Flores, mesmo com outros zagueiros à disposição, ele improvisou o meia Ki Sung-Yueng porque sabia que o Bradford defenderia com linhas retraídas e ofereceria espaço aos zagueiros do Swansea. A principal tarefa de Ki não era defender, mas organizar a saída de bola, o que ele faz naturalmente. Outro acerto foi a presença de três wingers – Pablo, Routledge e Dyer – para confundir a marcação.

Personalidade tranquila. Ainda na entrevista ao El País, Laudrup afirmou que dá liberdade a seus jogadores porque, “até que se prove o contrário, são adultos”. Quando Dyer foi substituído ontem, alguns minutos depois de quase armar um escândalo na tentativa de cobrar um pênalti e marcar seu terceiro gol na decisão, o treinador sorriu e o abraçou em vez de repreendê-lo. Laudrup criou um ambiente amistoso no vestiário, mas não perdeu o controle dele.

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013 Debates | 21:32

A lenda do mercado interno

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O mercado interno inglês costuma punir severamente quem comete erros de avaliação. Quando, em vez de observar outras ligas, um clube se rende ao comodismo de contratar um jogador consolidado na Premier League, o preço é geralmente inflacionado, o que gera expectativa e obrigação de retorno imediato. Entre outros fatores, isso acontece por conta de um consenso enganoso: se alguém dá certo em determinado time, necessariamente manterá o nível em outra equipe da mesma liga, pois está habituado ao futebol daquele país. É como se não houvesse risco de fracasso.

Há pouco mais de dois anos, o Liverpool vendeu Fernando Torres ao Chelsea por £50 milhões, entrou em pânico e, no mesmo dia, reinvestiu £35 milhões em Andy Carroll. Esse é o caso mais conhecido de supervalorização, mas existem outros. Entre 2009 e 2011, o Aston Villa vendeu um meio-campo completo – Downing, Barry, Milner e Young – por cerca de £80 milhões. O mesmo Villa que, em janeiro de 2011, pagou £24 milhões por Darren Bent, hoje reserva no time de garotos de Paul Lambert. Nenhum desses jogadores é exatamente um sucesso após a transferência.

Falta a muitos clubes bom senso na hora de definir os alvos. Por exemplo, Milner foi aclamado pela crítica quando, ainda no Aston Villa, passou a atuar como meia central para suprir a ausência de Barry. Repentinamente, um winger mediano se transformou em alguém comparável a Steven Gerrard e atraiu o interesse de outros clubes. No Manchester City, que pagou por ele £20 milhões e ainda cedeu Ireland ao Villa, Milner raramente foi utilizado na faixa central, voltou a ser o winger mediano e fez a transferência parecer um péssimo negócio.

Mesmo para quem está acostumado ao futebol inglês, existem circunstâncias que impactam o desempenho do jogador. Personagens da triangulação de 2011 entre Chelsea, Liverpool e Newcastle, Torres e Carroll têm sido constrangedores. Enquanto o caso do espanhol parece envolver aspectos físicos e psicológicos, o do inglês é um pouco mais claro. Em St. James’ Park, beneficiado pelas bolas longas e a precisão de Joey Barton, Carroll tinha enorme influência sobre os jogos, com gols e assistências de cabeça. O centroavante emprestado ao West Ham é refém de um modelo de jogo e precisa, necessariamente, de um bom provedor de bolas altas.

No Liverpool, até a dança de Sturridge é mais natural (mentira)

Dois anos depois, outra triangulação entre Chelsea, Liverpool e Newcastle ajuda a sustentar a tese (óbvia) de que certos jogadores rendem mais em certos contextos. O Chelsea fez uma “troca” muito celebrada: vendeu Daniel Sturridge ao Liverpool por £12 milhões e ativou a cláusula de rescisão de Demba Ba no Newcastle, de £7 milhões. Com £5 milhões de lucro, era o negócio do ano.

Era mesmo? Sturridge, que nada produzia em Stamford Bridge desde a saída de André Villas-Boas, tem 23 anos, talento comprovado (embora mal explorado no Chelsea) e já é fundamental em Anfield – a parceria entre ele e Suárez virou quase um requisito para o Liverpool ganhar jogos. O ataque flexível de Brendan Rodgers beneficia Sturridge, que troca de posição a toda hora e abusa do drible e da velocidade. No Chelsea, Ba reveza com Torres e está bem longe de reeditar as atuações do Newcastle.

Clint Dempsey foi excelente no Fulham e tem sido apenas razoável no Tottenham. Samir Nasri terminou bem no Arsenal e está mal no Manchester City. Steven Pienaar arrebentava no Everton, foi péssimo no Tottenham (ele funciona melhor à esquerda do meio-campo, onde joga Gareth Bale) e resgatou seu melhor jogo quando retornou ao Everton. Provas de que um bom currículo ajuda, mas não garante o sucesso de uma contratação.

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013 Arsenal, Copas Europeias | 13:52

Arsenal x Bayern

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Arsène Wenger acredita. Afirmou em entrevista coletiva que confia “na qualidade, no espírito e na força mental” do Arsenal para o confronto da Champions League contra o Bayern Munique, que começa amanhã no Emirates. É difícil falar em espírito e força mental dois dias após perder em Londres para o Blackburn e ser eliminado da FA Cup, tratada como a maior chance de conquistar um troféu que não vem há quase oito anos. Mas Wenger insiste: “vivemos numa democracia de experts e opiniões, e há vários experts que não estão exatamente certos”.

Para silenciar os experts, o Arsenal precisa fazer frente ao melhor Bayern dos últimos anos. Os números domésticos do time que Jupp Heynckes entregará a Pep Guardiola são incríveis. O aproveitamento na Bundesliga é de 86%. O saldo é de 50 gols – 57 marcados e sete sofridos. Como visitantes, os bávaros foram vazados apenas uma vez, pelo Nuremberg, em novembro de 2012.

O Bayern que perdeu o título europeu para o Chelsea ainda não tinha Dante, Javi Martínez e Mandzukic, reforços do mercado de verão. Eles se distribuíram por três dos quatro setores do 4-2-3-1 de Heynckes: o brasileiro oferece mais segurança à defesa, o espanhol garante estabilidade e saída de bola qualificada, e o croata aproveitou a lesão de Gómez para assumir o posto de centroavante titular. O outro setor, dos meias, teve a consolidação do excelente Kroos e a recuperação de Müller, que não fazia uma grande temporada desde a Copa do Mundo de 2010.

Possíveis escalações. Arsenal pode ter Ramsey para proteger o lado direito. Batalha do meio-campo, com Arteta-Wilshere-Cazorla x Martínez-Schweinsteiger-Kroos, promete.

Além do adversário em ótima fase e da lembrança da derrota para o Blackburn, o Arsenal tem de lidar com um problema sério em seu lado esquerdo. Gibbs está lesionado, André Santos foi emprestado ao Grêmio (o que restringe as opções, mas não é necessariamente ruim), e o recém-contratado Monreal não pode atuar porque já defendeu o Málaga na Champions. Wenger deve ser obrigado a deslocar Vermaelen à posição. Não é o melhor cenário, pois indica que Mertesacker será titular e um lateral improvisado ficará exposto a Müller (ou Robben) e dependerá demais da ajuda de Podolski no combate a Lahm.

Mas nem tudo é tragédia. Com cuidado no passe e velocidade, o Arsenal pode explorar a confiança do Bayern. Se o time alemão adiantar suas linhas e pressionar, haverá Wilshere, Cazorla e Walcott para responder em contra-ataques. Aliás, especula-se que Wenger abrirá mão de Giroud para priorizar a velocidade e a movimentação (provavelmente com Walcott adiantado) em detrimento de uma referência na área. Seria uma mensagem clara de como ele pretende abordar o jogo.

Pela situação das equipes, o confronto lembra muito o de dois anos atrás, quando o Arsenal enfrentou o Barcelona, também nas oitavas de final da Champions. Os catalães avançaram, mas perderam a primeira partida por 2 a 1, no Emirates. Jack Wilshere foi o grande jogador daquela noite. É nele que o Arsenal deve apostar de novo.

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013 Man City | 18:31

O maior pecado de Mancini

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Ainda há temporada em Eastlands. Após a melancólica derrota para o Southampton, na rodada passada da Premier League, o Manchester City recebe o Leeds no domingo pela quinta fase da FA Cup, competição que deu a Roberto Mancini seu primeiro título na Inglaterra.

No entanto, é flagrante o clima de fim de feira. Sem Champions League, 12 pontos abaixo do United e com um aproveitamento bem menor em 2012-13 (na liga, caiu de 78% para 68% em relação à temporada anterior), Mancini criticou publicamente a postura da equipe. “Tenho certeza de que mudaremos, pois mudarei os jogadores. Quero apenas os que estejam prontos para a luta nos últimos 12 jogos (da Premier League). Estou furioso com vários deles”, esbravejou.

A temporada decepcionante é reflexo de alguns aspectos. Há a indolência de que o treinador reclama, a inconsistência tática (Mancini experimentou e insistiu num ineficaz sistema com três zagueiros) e o aproveitamento espetacular do Manchester United, que perdeu apenas 13 pontos em dois terços da campanha. Mas o principal deles é o mercado de verão do Manchester City, que gastou £52 milhões e não melhorou o elenco.

Era evidente que Mancini procurava, sobretudo, três tipos de jogadores: um zagueiro para competir com Lescott, meias centrais para disputar posição com Barry e amenizar o impacto da ausência de Yaya Touré durante a Copa Africana de Nações e um winger que substituísse Adam Johnson, vendido ao Sunderland.

Scott Sinclair: até agora, nada

O defensor escolhido foi o sérvio Matija Nastasic, cedido pela Fiorentina, que recebeu em troca £12 milhões e Stefan Savic, aposta frustrada da temporada passada. Aos 19 anos, Nastasic impressionou pela maturidade, tomou a vaga de Lescott e revelou-se ótima opção para presente e futuro. É a exceção que confirma a regra.

Para o meio-campo, Mancini decidiu buscar Javi García, que pode atuar também como zagueiro, e Jack Rodwell por um valor combinado de £29 milhões. García jogou mal, e Rodwell mal jogou. Embora tenha evoluído no Benfica e chegado a Eastlands com status de provável titular, o espanhol não conseguiu tirar Barry do time, mesmo com o ex-capitão do Aston Villa em temporada oscilante. O inglês, de início promissor no Everton, é investimento para longo prazo, mas deveria ter mostrado mais na primeira temporada. É inevitável pensar que Mancini poderia ter contratado alguém como Song ou Cabaye.

O equívoco mais grave foi o tratamento negligente à necessidade de substituir Adam Johnson, que, embora não fosse exatamente fundamental para o Manchester City, era o único winger legítimo do elenco. Johnson garantia velocidade pelos flancos contra defesas fechadas, agitava os jogos, dava assistências e marcava gols eventualmente, mas nunca convenceu Mancini. O Sunderland ofereceu £12 milhões por ele, e o italiano não hesitou em aceitar.

O problema é que, em vez de contratar um substituto melhor, o Manchester City buscou Scott Sinclair, do Swansea, por £6,2 milhões. Resultado? Sinclair ganha bem, mas não joga. Quando substituiu Nasri (outro que faz temporada pobre, aliás) na partida contra o Southampton, Mancini chamou o burocrático Milner, que está longe de ser um game changer, e Sinclair ficou no banco. Johnson era muito mais produtivo. É impossível absolver o técnico, que conhecia as carências do elenco e investiu mal demais.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013 Copas Europeias, Man Utd | 15:59

Real Madrid x Manchester United

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O confronto entre Manchester United e Real Madrid é a típica ironia de sorteio da UEFA Champions League. Segundo colocado no grupo do United, o Galatasaray enfrenta nas oitavas de final um Schalke 04 em péssima fase. A Alex Ferguson, as bolinhas reservaram José Mourinho e Cristiano Ronaldo. Mesmo que a liderança da chave não tenha sido recompensada com um adversário simples, ninguém reclamou da sorte. Certamente é a partida que todos querem jogar, ainda que precocemente.

É improvável que a crise de vestiário do Real Madrid facilite o confronto. À parte algumas atuações tétricas na liga espanhola, as últimas semanas mostraram que, quando concentrado, o time de Mourinho pode destruir bons oponentes. Ainda em janeiro, o Valencia levou 5 a 0 em casa, com todos os gols no primeiro tempo. No sábado, um brilhante Cristiano Ronaldo garantiu 4 a 1 sobre o Sevilla.

Embora a temporada do United indique que o ataque sempre compensa as falhas da defesa, o caminho para sair vivo do Santiago Bernabéu passa por esperar e não oferecer espaço para as transições rápidas do Real Madrid. O quarto gol contra o Sevilla foi a perfeita demonstração de como o contra-ataque madridista é letal e não deve ser permitido. O time da Andaluzia cobrou falta no campo de ataque e, exatamente 15 segundos depois, sofreu o gol. Ronaldo iniciou e concluiu a jogada.

Possíveis escalações. Base do United é a formação utilizada contra o Tottenham, em 20 de janeiro, com Rooney no lugar de Kagawa

Aliás, Ronaldo não pode ser marcado apenas por Rafael. Ferguson teve esse cuidado quando enfrentou Bale, na visita ao Tottenham há três semanas. Para evitar a exposição do lateral brasileiro às arrancadas do galês, Phil Jones, o quebra-galho do elenco, foi escalado no meio-campo e dobrou a marcação sobre Bale. A tendência é que ele repita o expediente em Madrid. Não à toa, havia certa apreensão sobre a condição física de Jones, substituído por precaução na última rodada da Premier League. Contra o Tottenham, deu certo. Na quarta-feira, pode sobrar espaço para outros jogadores decisivos – daí a importância, por exemplo, de Carrick no combate a Özil.

Outra peça-chave para o United é Rooney, que deve ligar contra-ataques, abastecer van Persie e eventualmente finalizar. A versatilidade do número 10 oferece flexibilidade à equipe. Ferguson pode orientá-lo a incomodar Xabi Alonso, sua função habitual, ou mesmo a fechar o lado esquerdo, como aconteceu no fim de semana contra o Everton. No entanto, sem esquecer a necessidade de marcar gols em Madrid, é fundamental que Rooney sempre se aproxime da área quando o United tiver a bola.

Como o Real Madrid contra-ataca sem piedade, é praticamente questão de sobrevivência para o United um placar aceitável no Santiago Bernabéu. A eliminação de dez anos atrás (vitórias do Real por 3 a 1 em Madrid e do United por 4 a 3 em Manchester, com hat-trick de Ronaldo Fenômeno), mesmo com personagens diferentes, serve de lição: quando você tem de correr atrás do resultado, sempre haverá um Ronaldo do outro lado para derrubá-lo.

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013 Inglaterra | 22:39

Inglaterra x Brasil

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Prováveis escalações de Inglaterra e Brasil

A primeira partida da Inglaterra depois do 150º aniversário da Football Association não poderia ser mais interessante. Ainda que os últimos anos indiquem o contrário, sobrevive no imaginário inglês a ideia de que os brasileiros praticam um tipo especial de futebol. “Jogar como o Brasil”, expressão consagrada no Reino Unido, remete a um estilo ofensivo e agradável aos olhos.

Na visita da seleção de Scolari a Wembley, será escrito outro capítulo de uma história desfavorável à Inglaterra. Em 23 jogos, foram três vitórias, nove empates e 11 derrotas diante do Brasil. O blog lista pontos importantes do amistoso de amanhã:

A centésima vez de Cole. Aos 32 anos, Ashley Cole será o sétimo jogador a completar 100 partidas pela seleção inglesa. Embora seja uma figura controversa, o lateral-esquerdo do Chelsea fez carreira brilhante e certamente merece a marca. O problema é que, enquanto ele estiver em campo, Leighton Baines estará no banco. Cole ainda é confiável, mas Baines extrapolou há alguns meses a condição de melhor lateral inglês. Em 2012-13, não é exagero dizer que o defensor (que ataca como poucos) do Everton é um dos grandes jogadores da liga. Roy Hodgson terá de tomar uma decisão difícil em breve, e o tempo não está a favor de Cole.

Comportamento de Johnson contra Neymar. Se o Brasil for escalado no 4-2-3-1, parece inevitável um duelo direto entre Glen Johnson e Neymar. O lateral do Liverpool evoluiu bastante na marcação e, ainda que precise de ajuda para segurar o santista, não deve ser um oponente tão simples. Mas Johnson não é meramente defensor. Caso Hodgson lhe dê a mesma liberdade que ele tem com Brendan Rodgers, Neymar terá de acompanhá-lo para proteger Adriano, que já precisa vigiar Walcott.

Atuação de Gerrard. Steven Gerrard é o único meio-campista ou atacante que não perdeu sequer um minuto de Premier League em 2012-13. Apesar de participar de vários gols do Liverpool, ele está mais longe do ataque, com mais responsabilidades defensivas e de organizar o time a partir da saída de bola. Amanhã, num meio-campo com Wilshere e Cleverley, a tendência é que Gerrard seja ainda mais exigido no confronto direto com Ronaldinho. Mas vale o alerta: se o meia do Atlético não participar do sistema de marcação, o capitão inglês aproveitará os espaços quando tiver a bola.

Chance de Walcott. No melhor momento da carreira, Theo Walcott tem a oportunidade de consolidar seu lugar na seleção. Em sua posição natural, aberto à direita, ele tem sido uma ameaça constante aos laterais adversários. A experiência como atacante no Arsenal também pode ser interessante para aprimorar as finalizações. Considerando a tendência de Hodgson a escalar sempre um winger mais defensivo (no caso, James Milner), é fundamental que ele jogue bem para permanecer acima de Lennon, Young e Chamberlain na hierarquia do treinador.

Postura da seleção inglesa. Com Capello e Hodgson, a Inglaterra teve algumas atuações letárgicas em Wembley. Mesmo as vitórias tiveram pontos negativos. Por exemplo, o amistoso contra a Bélgica, na preparação para a Euro 2012, foi agonizante: 41% de posse de bola e apenas um chute certo (contra seis dos belgas), o do único gol do jogo, marcado por Danny Welbeck. Para o confronto com o Brasil, a escalação pode até sugerir uma abordagem defensiva (Rooney isolado no ataque), mas o meio-campo é técnico o bastante para ao menos tentar manter a bola por mais tempo.

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