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quinta-feira, 2 de maio de 2013 Debates, Man Utd | 19:01

O Bayern inglês

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SAF não diminui o ritmo

A hegemonia do Manchester United na Premier League esteve realmente ameaçada apenas uma vez, quando as três temporadas de 2003 a 2006 foram dominadas pela melhor versão do Arsenal de Wenger e pelo excelente Chelsea de Mourinho. Mas a resposta a esse período foi imediata. Associado a um ótimo desempenho na Europa, o tricampeonato de 2007-08-09 reiterou a soberania do United na era moderna do futebol inglês.

O título de 2012-13, antecipado há bastante tempo e confirmado na semana passada, foi mais uma demonstração da capacidade de Alex Ferguson de preservar o ethos vencedor em Old Trafford, sempre com ajustes pontuais de uma temporada para outra. Por enquanto, houve três elementos capazes de combater o United desde a fundação da Premier League, em 1992: Alan Shearer (título do Blackburn, em 1994-95), Arsène Wenger e o investimento pesado de Chesea e Manchester City. Os Devils sempre contra-atacaram.

Por conta da quantidade de boas e ótimas equipes (ainda superior, por exemplo, à da Bundesliga), a Premier League transmite uma sensação de competividade, mas está claro que o Manchester United é o Bayern Munique da Inglaterra. Candidatos a concorrentes não faltam, mas ele sempre está na corrida pelo título e habitualmente ganha (13 de 21, ou seja, 62% das edições da Premier League).

As mudanças drásticas pelas quais o futebol inglês passou não atingiram Ferguson, que jamais mereceu o rótulo de ultrapassado. Ainda que faça escolhas questionáveis, como relegar Rooney ao banco no jogo da eliminação na Champions League, e mude demais o time durante a temporada, o manager sempre se atualizou como estrategista e manteve total controle sobre o vestiário. Em Old Trafford, ninguém pode ser ou sentir-se maior do que SAF.

O amor recíproco entre Mourinho e Chelsea: que seja infinito enquanto dure

Ferguson é a combinação perfeita entre sagacidade, liderança e imposição de respeito a adversários e arbitragens. Avesso à palavra “aposentadoria” e no comando de um clube que fecha um contrato milionário atrás do outro, ele está na posição ideal para seguir dominando o futebol inglês. A questão é: quem pode minimizar o sucesso do United nos próximos anos?

As respostas mais óbvias são Manchester City e Chelsea, mas o dinheiro precisa ser associado a decisões certas. Para muita gente, os lampejos do City no fim da temporada, como a vitória sobre o United em Old Trafford, justificam um voto de confiança a Roberto Mancini. Outra interpretação é de que o técnico italiano fracassou por não tirar o melhor do time de maneira consistente. O fato é que, apesar do provável título na FA Cup, a temporada é fraca e reflexo de um trabalho confuso, que incluiu contratações que não acrescentaram nada ao elenco.

No caso do Chelsea, a esperança está totalmente depositada no iminente retorno de José Mourinho. A volta do português seria ótima para o clube e para a liga, mas vale lembrar que ele e Roman Abramovich não são propensos a longas parcerias – o período de Mourinho nos Blues (2004-2007) é o máximo que ele permaneceu num clube e também o trabalho mais longo de um treinador sob o comando do russo. Na Premier League, o pós-Mourinho foi decepcionante, com um título e vários anos longe do United.

Entretanto, a conversa não precisa ficar restrita a Manchester City e Chelsea. O notável exemplo do Borussia Dortmund, bicampeão alemão (2011 e 2012) e finalista da atual edição da Champions League, mostra que investimento descomunal não é o único caminho para tornar-se uma potência, embora ele facilite e acelere esse processo. Mas isso é assunto para outro artigo, em breve.

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segunda-feira, 18 de março de 2013 Debates | 20:27

O mito da tabela fácil

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“A tabela do (insira clube aqui) é fácil”. No quarto final da temporada, quando os objetivos das equipes já estão bem definidos, são comuns as projeções baseadas nos adversários até a última rodada. Entretanto, a Premier League costuma desmentir essas previsões quando elas consideram apenas a posição que o time ocupa. O Wigan de 2011-12 escapou do rebaixamento porque venceu sete das últimas nove partidas e frustrou, por exemplo, o Manchester United na luta pelo título.

A oito rodadas do fim do campeonato, está de volta a armadilha da “tabela fácil”. O Wigan de Roberto Martínez, embora seja o 18º colocado, é novamente um dos adversários mais traiçoeiros neste período da temporada. A estrutura do time é muito semelhante à que chocou a Inglaterra no ano passado, no 3-4-3. A maior diferença certamente é a presença de Arouna Koné em vez de Victor Moses. A equipe perdeu velocidade e disciplina tática no lado direito, mas ganhou poder de finalização. Koné marcou o gol da fundamental vitória de ontem sobre o Newcastle e traduziu o espírito destemido dos Latics: “eu não tinha chuteiras até os 12 anos, então não me preocupo com rebaixamento”.

Outro adversário perigoso nas rodadas finais é o 16º colocado Southampton, que derrotou o Liverpool por 3 a 1 no sábado. Foi incontestável o domínio dos Saints contra um dos melhores times de 2013 na Premier League. É preciso reconhecer que Mauricio Pochettino não quis inventar a roda e faz trabalho correto, mas o Southampton já jogava com essa intensidade nas últimas semanas de Nigel Adkins no clube. O 4-2-3-1, com Rodriguez, Ramírez e Lallana no suporte a Lambert, tem sido capaz de pressionar e obter ótimos resultados contra equipes poderosas. A também categórica vitória por 3 a 1 sobre o Manchester City, há pouco mais de um mês, é outro exemplo de atuação dominante.

Berbatov tem a aparência e a autoconfiança de Sheldon Cooper, de "The Big Bang Theory"

Na chamada “tabela de forma” da Premier League, para a qual contam os seis resultados mais recentes, o Fulham está na quarta posição. Apático em outros momentos da temporada, o time de Martin Jol enfim compensa as perdas no meio-campo (Murphy, Dembele e Dempsey, que também jogava avançado) com solidez defensiva e precisão no ataque. O desempenho na vitória por 1 a 0 sobre o Tottenham no norte de Londres resumiu o Fulham de 2013: parou Bale e matou o jogo com Berbatov, que marcou em três partidas consecutivas e ajudou a levar os Cottagers à décima posição.

Ao contrário do que sugere a tabela, o adversário mais simples que alguém pode enfrentar não é o Queens Park Rangers, ainda na lanterna da liga. Tem sido bem pior o nível apresentado pelo Sunderland, provavelmente a grande decepção do ano por conta da alta expectativa sobre a primeira temporada completa de Martin O’Neill no clube. A formação com Adam Johnson, Sessegnon, Graham e Fletcher é incrivelmente travada – contra o Norwich, foram 60 minutos com um jogador a mais para marcar apenas um gol, de pênalti, e não sair do empate em casa. Com quatro derrotas e dois empates nas últimas seis rodadas, o Sunderland está em 15º, mas é o pior time da liga exatamente agora.

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013 Debates | 21:32

A lenda do mercado interno

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O mercado interno inglês costuma punir severamente quem comete erros de avaliação. Quando, em vez de observar outras ligas, um clube se rende ao comodismo de contratar um jogador consolidado na Premier League, o preço é geralmente inflacionado, o que gera expectativa e obrigação de retorno imediato. Entre outros fatores, isso acontece por conta de um consenso enganoso: se alguém dá certo em determinado time, necessariamente manterá o nível em outra equipe da mesma liga, pois está habituado ao futebol daquele país. É como se não houvesse risco de fracasso.

Há pouco mais de dois anos, o Liverpool vendeu Fernando Torres ao Chelsea por £50 milhões, entrou em pânico e, no mesmo dia, reinvestiu £35 milhões em Andy Carroll. Esse é o caso mais conhecido de supervalorização, mas existem outros. Entre 2009 e 2011, o Aston Villa vendeu um meio-campo completo – Downing, Barry, Milner e Young – por cerca de £80 milhões. O mesmo Villa que, em janeiro de 2011, pagou £24 milhões por Darren Bent, hoje reserva no time de garotos de Paul Lambert. Nenhum desses jogadores é exatamente um sucesso após a transferência.

Falta a muitos clubes bom senso na hora de definir os alvos. Por exemplo, Milner foi aclamado pela crítica quando, ainda no Aston Villa, passou a atuar como meia central para suprir a ausência de Barry. Repentinamente, um winger mediano se transformou em alguém comparável a Steven Gerrard e atraiu o interesse de outros clubes. No Manchester City, que pagou por ele £20 milhões e ainda cedeu Ireland ao Villa, Milner raramente foi utilizado na faixa central, voltou a ser o winger mediano e fez a transferência parecer um péssimo negócio.

Mesmo para quem está acostumado ao futebol inglês, existem circunstâncias que impactam o desempenho do jogador. Personagens da triangulação de 2011 entre Chelsea, Liverpool e Newcastle, Torres e Carroll têm sido constrangedores. Enquanto o caso do espanhol parece envolver aspectos físicos e psicológicos, o do inglês é um pouco mais claro. Em St. James’ Park, beneficiado pelas bolas longas e a precisão de Joey Barton, Carroll tinha enorme influência sobre os jogos, com gols e assistências de cabeça. O centroavante emprestado ao West Ham é refém de um modelo de jogo e precisa, necessariamente, de um bom provedor de bolas altas.

No Liverpool, até a dança de Sturridge é mais natural (mentira)

Dois anos depois, outra triangulação entre Chelsea, Liverpool e Newcastle ajuda a sustentar a tese (óbvia) de que certos jogadores rendem mais em certos contextos. O Chelsea fez uma “troca” muito celebrada: vendeu Daniel Sturridge ao Liverpool por £12 milhões e ativou a cláusula de rescisão de Demba Ba no Newcastle, de £7 milhões. Com £5 milhões de lucro, era o negócio do ano.

Era mesmo? Sturridge, que nada produzia em Stamford Bridge desde a saída de André Villas-Boas, tem 23 anos, talento comprovado (embora mal explorado no Chelsea) e já é fundamental em Anfield – a parceria entre ele e Suárez virou quase um requisito para o Liverpool ganhar jogos. O ataque flexível de Brendan Rodgers beneficia Sturridge, que troca de posição a toda hora e abusa do drible e da velocidade. No Chelsea, Ba reveza com Torres e está bem longe de reeditar as atuações do Newcastle.

Clint Dempsey foi excelente no Fulham e tem sido apenas razoável no Tottenham. Samir Nasri terminou bem no Arsenal e está mal no Manchester City. Steven Pienaar arrebentava no Everton, foi péssimo no Tottenham (ele funciona melhor à esquerda do meio-campo, onde joga Gareth Bale) e resgatou seu melhor jogo quando retornou ao Everton. Provas de que um bom currículo ajuda, mas não garante o sucesso de uma contratação.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013 Debates | 13:11

Liga dos técnicos

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José Mourinho não esquece a Inglaterra. Na gravação em que parabeniza a Football Association pelos 150 anos, divulgada na segunda-feira, o ex-técnico do Chelsea aproveitou para ratificar o desejo de retornar à Premier League. No dia seguinte, Pep Guardiola também expôs a intenção de comandar um clube inglês, por conta do “futebol fascinante” e do apoio incondicional dos torcedores.

Com o vestiário em chamas e uma campanha medíocre na liga espanhola, Mourinho deve deixar o Real Madrid no fim da temporada. Guardiola pode, com raríssimas restrições, escolher seu próximo clube. Esse cenário coincide com um momento em que é impossível garantir a permanência dos treinadores de Chelsea e Manchester City para 2013-14. No Arsenal, Arsène Wenger nunca havia sido tão contestado. No Manchester United, Alex Ferguson se aposenta quando quiser.

Um clube até prepara o terreno para Guardiola. O Manchester City não esconde seu projeto de barcelonização, do qual já fazem parte o diretor-executivo Ferran Soriano e o diretor de futebol Txiki Begiristain, que deixaram o clube catalão em 2008 e 2010, respectivamente. É evidente que o Abu Dhabi United Group pretende reproduzir um modelo de sucesso que vai bem além da contratação de um treinador, mas é também claro que Guardiola se enquadra perfeitamente nesse contexto.

As ambições de Mourinho e Guardiola, associadas ao cenário de incerteza de alguns grandes clubes ingleses, aguçam a imaginação. “Imagine Mou, Pep e Ferguson, todos na Premier League”, escreveu o jornalista Jonathan Stevenson. Seria uma manifestação de força do campeonato e, ao mesmo tempo, um combustível para acompanhar a evolução de outras ligas e resgatar os excelentes desempenhos em competições europeias do fim da década passada.

No entanto, a diversidade de estilos que eles ofereceriam à liga é o aspecto mais empolgante. Imagine uma visita do time de Guardiola ao Britannia Stadium para enfrentar o Stoke de Tony Pulis. Como ele lidaria com os lançamentos longos? Qual seria a porcentagem de posse de bola? Outro confronto interessante seria entre Mourinho e Wenger, de relacionamento difícil e extremamente antagônicos. Em seu ótimo livro “Invertendo a Pirâmide”, Jonathan Wilson escreve: “de um ponto de vista emocional, gosto mais do jogo de passes de Wenger no Arsenal do que do pragmatismo de Mourinho no Chelsea, mas isso é uma preferência pessoal”. Seria fantástico contrastá-los novamente.

Guardiola e Mourinho não bipolarizariam a liga na Inglaterra, como aconteceu na Espanha. Com receitas bem mais equilibradas entre os clubes, haveria outros candidatos ao título e mais jogos imprevisíveis. A tendência é que a dupla de Manchester e o Chelsea estejam sempre fortes. O Arsenal, se quiser, pode lutar contra a inércia dos últimos anos. Tottenham e Liverpool têm projetos consistentes conduzidos por treinadores jovens e competentes. E a Premier League, definitivamente, tem argumentos para ser um bom lugar nas próximas temporadas.

*O artigo é um exercício motivado pelas declarações recentes dos treinadores. Não existe nada certo entre Mourinho, Guardiola e clubes ingleses. O ex-técnico do Barcelona trataria também o Bayern Munique como um destino possível.

*Atualização às 13h55: o timing do texto foi péssimo. Guardiola acaba de ser anunciado como o novo treinador do Bayern, a partir de 2013-14. Mas valeu a reflexão.

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012 Debates | 14:21

Dilemas

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Benteke marcou oito gols pelo Villa, mas sua contribuição não se limita a isso

A disputa por posição entre dois ou mais jogadores costuma ser interessante para elevar o nível do elenco, mas nem sempre é de fácil administração para os técnicos. O blog trata de três casos no futebol inglês:

Benteke x Bent. Quando assumiu o Aston Villa, Paul Lambert sabia que teria uma missão ingrata. O péssimo legado de seu antecessor, Alex McLeish, e as esperanças concentradas nas revelações das categorias de base tornavam o desafio enorme. No último dia do mercado, quando havia uma grande expectativa sobre como o Villa gastaria o orçamento restante para se reforçar, Lambert fechou a contratação do centroavante belga Christian Benteke, do Genk. Todo mundo pensou “por quê?”, se ele já tinha Darren Bent.

Lambert acertou em cheio. No fim de semana, Benteke acabou com o Liverpool: dois gols e uma assistência na vitória por 3 a 1 do Aston Villa em Anfield. Titular de uma das mais promissoras seleções do mundo, o belga não é, ao contrário de Bent, um mero marcador de gols. Além de finalizar bem, ele ganha bolas no alto, está sempre se movimentando e cria jogadas de ataque. A presença de Benteke beneficia a equipe do ponto de vista coletivo e facilita a vida de quem se aproxima dele. O atacante / winger austríaco Andreas Weimann é o melhor exemplo. Lambert sentiu que precisava de alguém como Benteke, bancou a presença do atacante de 22 anos e relegou Bent ao banco. A recuperação do Villa nas últimas semanas passa bastante pela escolha corajosa do treinador, que não se intimidou quando teve de barrar a maior estrela do grupo. Bent pode ser negociado em janeiro.

Oscar x Moses. Essa disputa por posição foi o hit do domingo, com várias críticas a Rafa Benítez pela decisão de escalar o nigeriano na derrota do Chelsea para o Corinthians no Mundial de Clubes. Oscar tentou ser discreto, mas foi inocente na hora de reclamar.

Se tivesse planejado o elenco do Chelsea, Benitez certamente não teria contratado Oscar. Não porque não aprecie as qualidades do brasileiro, mas por conta de suas convicções táticas. O típico time de Benítez tem wingers aplicados na marcação (Kuyt e Riera no Liverpool; Rufete e Vicente no Valencia), não três armadores dinâmicos sem posição fixa. Ainda assim, é para lá de discutível a escolha de deixar no banco com frequência um jogador tão talentoso e já adaptado ao futebol inglês.

Defoe x Adebayor. André Villas-Boas escalou ambos na vitória de ontem do Tottenham sobre o Swansea, mas isso não significa que a situação esteja definida. Sem Bale, lesionado, Dempsey foi deslocado ao lado esquerdo e abriu caminho para a dupla de ataque. No entanto, quando o winger galês retornar, AVB pode reconsiderar a utilização do 4-4-2 (longe de ser seu sistema favorito) e da parceria entre Defoe e Adebayor.

O togolês, que ainda deve boas atuações em 2012-13, perdeu por lesão o início da temporada e por suspensão mais três jogos da 13ª à 15ª rodada. Na Premier League, são nove participações, quatro como titular (três ao lado de Defoe) e cinco como reserva. Enquanto isso, Defoe virou titular, adaptou–se à função de atacante único e passou a finalizar muito bem de todas as formas, a ponto de AVB compará-lo a Falcao García, com quem trabalhou no Porto. Curiosamente, nenhum dos nove gols marcados por Defoe na Premier League aconteceu com Adebayor em campo. É para refletir.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012 Copas Europeias, Debates | 23:59

Europa menos inglesa

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McKayla não está impressionada pelo desempenho inglês na Champions League

Até 1997, a Champions League era disputada apenas por campeões nacionais. Assim, o único representante inglês em 1995-96 foi o Blackburn, que havia conquistado a Premier League na temporada anterior. Foi um desastre. No grupo de Rosenborg, Legia Varsóvia e Spartak Moscou, os Rovers perderam quatro partidas, empataram uma e derrotaram o Rosenborg na última rodada, quando já estavam eliminados. Aquela ficou marcada como a pior campanha inglesa na história da Champions.

O recorde negativo do Blackburn sobreviveu a 16 temporadas. Agora ele é do Manchester City, que encerrou sua participação no Grupo D com deprimentes três pontos. Sistematicamente, empatou os jogos em casa e foi derrotado em todas as visitas, a Real Madrid, Ajax e Dortmund. Roberto Mancini, porém, afirmou que não está envergonhado. Há um mês, quando o cenário já indicava eliminação na primeira fase, o técnico italiano foi intelectualmente desonesto para justificar o fracasso continental.

É assustador que Mancini considere naturais esses vexames. Em menos de dois anos, além das duas eliminações na fase de grupos da Champions, seu time caiu diante de Dynamo Kiev e Sporting na Europa League. Desta vez, apesar da escalação respeitável utilizada ontem, contra o Dortmund, a atitude relapsa dos jogadores passou a impressão de que ninguém ali queria garantir a terceira posição na chave e o direito (interpretado por Mancini como dever) de jogar a Europa League. Com a derrota na Alemanha, a vaga ficou com o Ajax.

Fracasso chama fracasso. Afastado da Europa, o City não melhora seu coeficiente na UEFA, e a tendência é que seja novamente castigado por um grupo difícil na próxima Champions. Entretanto, o exemplo do atual campeão inglês pode não ser o único. É evidente que as campanhas do Manchester City têm sido particularmente desastrosas, mas outros clubes do país também precisam refletir sobre seu desempenho em competições europeias.

Não existe mais aquele domínio de 2007-08, quando Manchester United, Chelsea, Liverpool e um pálido Barcelona foram semifinalistas da Champions. Em 2009-10, não houve ingleses nas semifinais. Nas últimas duas temporadas, apenas dois avançaram à segunda fase – Chelsea e Arsenal em 2011-12 e Manchester United e Arsenal em 2012-13. A eliminação do Chelsea nesta edição é incontestável, pois Juventus e Shakhtar foram simplesmente melhores.

Outplayed by Dortmund, Napoli, Athletic…
A imprensa inglesa adora a expressão outplayed by, que, nesse contexto, significa dominado por. Ela tem sido bastante utilizada para descrever partidas em que times ingleses foram dominados por estrangeiros, não necessariamente no placar, mas sobretudo no volume de jogo. Em 2012-13, o Dortmund controlou o Manchester City nos dois jogos. Shakhtar e Juventus deram aulas ao Chelsea. Na temporada passada, o City foi vítima do Napoli. Mesmo campeão, o Chelsea não foi soberano em nenhuma das eliminatórias, contra Napoli, Benfica, Barcelona e Bayern. O Arsenal sofreu 4 a 0 do Milan na Itália. O Manchester United sucumbiu ao Athletic Bilbao na Europa League.

Não há qualquer indício de enfraquecimento da liga inglesa, que ainda pode ser considerada a melhor do mundo em vários aspectos. No entanto, não se justifica esse sentimento de soberba que os clubes ingleses parecem alimentar. O calendário doméstico desgastante, o choque com outros estilos (os três zagueiros de Napoli e Juventus, o futebol total do Athletic, a postura implacável do Dortmund…) e às vezes a falta de repertório dos treinadores têm atrapalhado as campanhas na Europa. Até a segunda posição no ranking da UEFA já é ameaçada pela Alemanha. Não há que se falar em nova Itália, mas é preciso abrir os olhos.

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terça-feira, 30 de outubro de 2012 Debates | 22:48

Número 10

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Treinadores estrangeiros, com abordagens diferentes, impulsionaram a presença do número 10 na Inglaterra

O ex-técnico do Liverpool Rafa Benítez foi o responsável pela estabilização do 4-2-3-1 como um esquema confiável na Europa. Entre 2001 e 2004, o Valencia de Benítez conquistou duas vezes o campeonato espanhol e uma a Copa da UEFA. A formação era bem definida, sempre com três meias (habitualmente Rufete, Aimar e Vicente) atrás do único atacante. O sucesso no Mestalla o levou a Anfield em 2004.

Na Inglaterra, Benítez se converteu ao 4-2-3-1 na temporada 2008-09. Quando desistiu de Robbie Keane, que havia sido contratado para acompanhar Fernando Torres no ataque, ele passou a escalar uma linha que geralmente tinha Kuyt, Gerrard e Riera no suporte a El Niño. O Liverpool fez uma campanha brilhante: 86 pontos e apenas duas derrotas, desempenho que poderia ter sido suficiente para o título.

Desde então, gradativamente, o 4-2-3-1 substitui o 4-4-2 como a formação preferencial na Premier League. Hoje, metade dos treinadores do campeonato escala assim. Entre as consequências desse processo, está o aparecimento da função do número 10, jogador que se posiciona entre as linhas de defesa e meio-campo do time adversário e praticamente inexistia no futebol inglês. A figura do “meia criativo” nem sequer tem um nome na Inglaterra, como o argentino enganche ou o italiano trequartista. Não tem nome, mas ganhou vários representantes em 2012-13.

Esta temporada apresentou um boom de números 10 na Premier League. Foram contratados Oscar (Chelsea), Cazorla (Arsenal), Kagawa (Manchester United), Sahin (Liverpool; adaptado à função), Ramírez (Southampton), Michu (Swansea) e Sigurdsson (Tottenham). São cerebrais (Cazorla), carregadores de bola (Kagawa) e goleadores (Michu). Ainda há os híbridos. Oscar, por exemplo, é criativo, mas também rápido, engenhoso e eficiente até quando não tem a bola.

Curiosamente, Rooney herdou o papel que seria (ou ainda será) de Kagawa no Manchester United. O japonês, que ainda não se adaptou plenamente à Premier League, lesionou-se e deve retornar na segunda quinzena de novembro. A conversão de Rooney à nova função é um exemplo de como o futebol inglês pode se beneficiar. Por enquanto, a necessidade obriga os clubes a importar esses jogadores. Em algum tempo, é provável que a Inglaterra produza seus próprios meias criativos, até pela padronização do 4-2-3-1 em categorias de base de vários clubes.

A Inglaterra forma números 8, como Gerrard, Lampard e Wilshere, em escala industrial. Por essência, o último 10 inglês foi Joe Cole. No entanto, o 4-3-3 de José Mourinho no Chelsea o transformou em ponta direita e, com o tempo, ele mesmo se perdeu. Ele e a seleção inglesa, que se viu obrigada a “estacionar o ônibus” contra França e Itália na Euro porque tinha mais corredores do que pensadores.

Através do intercâmbio com treinadores e jogadores estrangeiros, a maneira de abordar o futebol mudou na Inglaterra, em todos os clubes grandes e em diversos clubes menores. A Premier League não perdeu seus meias centrais dinâmicos, os jogadores de velocidade e os centroavantes, mas ganhou o número 10, um personagem que tornou as partidas melhores do que eram há cinco anos.

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segunda-feira, 29 de outubro de 2012 Debates | 12:56

Basta

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Brasil, 27 de outubro.
Em Internacional 2 x 1 Palmeiras, a anulação do gol marcado por Hernán Barcos com a mão, através de uma suposta interferência externa, provocou duas reações. A primeira é de que, mesmo com um possível deslize que contraria a regra do jogo, valeu a pena impedir que a malandragem do atacante argentino se transformasse no gol de empate do Palmeiras, ou seja, evitou-se um equívoco maior, grosseiro. A outra diz respeito à revolta do time “prejudicado”, acostumado aos erros porque a arbitragem não pode recorrer a recursos eletrônicos. O resultado é um cenário caótico, em que o clube cogita solicitar a impugnação da partida porque um gol marcado com a mão não foi validado. Na Inglaterra, a necessidade de admitir a tecnologia no futebol se manifestou de uma maneira diferente:

Inglaterra, 27 e 28 de outubro.
Não houve interferência externa na nona rodada da Premier League. Decisões equivocadas, que distorceram resultados, foram tomadas e mantidas. Em Arsenal 1 x 0 QPR, Arteta estava em posição de impedimento quando marcou. Neste caso, ao menos, a arbitragem seguiu a recomendação de não interferir caso não tenha convicção de que houve irregularidade. Pior foi a atuação do assistente em Everton 2 x 2 Liverpool. No acréscimo do segundo tempo, Suárez estava apto, mas teve o gol anulado.

Em Chelsea 2 x 3 Manchester United, confronto que pode ter sido fundamental para o campeonato, a arbitragem de Mark Clattenburg foi um show de horrores – não que isso seja novidade. Clattenburg, que comete erros para todos os lados em escala industrial, assumiu a posição de protagonista quando expulsou Torres, mostrando-lhe o segundo cartão amarelo. Derrubado por Evans, o espanhol foi acusado de simular a falta. O Chelsea foi reduzido a nove jogadores (Ivanovic havia sido corretamente expulso) e ainda viu Hernández marcar o gol decisivo em posição de impedimento.

Clattenburg, protagonista

Ninguém precisa, sem provas ou indícios, acusar a Football Association de corrupção. Por mais que sejam suspeitos em certas circunstâncias, erros simplesmente acontecem. A FA tem a obrigação de cuidar da qualidade de seus árbitros e marginalizar aqueles que cometem equívocos com mais frequência. Clattenburg, por exemplo. No entanto, a decisão definitiva não vai partir de uma associação nacional.

Como as arbitragens imprecisas são um fenômeno mundial, o problema mais grave passa a ser da FIFA. Este fim de semana foi trágico para quem acompanha futebol e espera que árbitros sejam meros mediadores, com jogos decididos por jogadores. Mas ele pode ser também um marco. Quando, eventualmente, a FIFA deixar a idade da pedra e liberar recursos eletrônicos (a introdução de um chip na bola, novidade do Mundial de Clubes, resolve uma parte mínima da questão) que possam auxiliar na tomada de decisões, todos vão se lembrar de 27 e 28 de outubro, os dias em que a postura jurássica de Sepp Blatter e seus camaradas foi exposta de todas as formas.

Clattenburg ainda é acusado de insultos racistas a Obi Mikel, do Chelsea

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quinta-feira, 13 de setembro de 2012 Debates | 14:21

Anistia

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Foram necessários 23 anos para que as famílias atingidas pela Tragédia de Hillsborough ganhassem uma recompensa por sua incansável luta por justiça. Com a exposição de provas que haviam sido distorcidas e omitidas pela polícia, a culpa pela morte de 96 torcedores do Liverpool finalmente caiu sobre os ombros certos: os das autoridades locais, que não ofereceram segurança àquelas pessoas. Em 15 de abril de 1989, o Liverpool enfrentava o Nottingham Forest. Logo em seguida, passou a enfrentar a intransigência de quem insistia em culpar os torcedores pela tragédia.

Memorial em Anfield: tributo às 96 vítimas fatais de Hillsborough

Conveniência, uma praga universal. A ação da polícia, que àquela época transferiu a responsabilidade aos torcedores, foi o caminho mais conveniente. Apenas quatro anos após o episódio de Heysel, era simples apontar o comportamento dos “hooligans” como a origem de todos os desastres, pois o senso comum comprava essa versão.

Não acabou. A campanha Justice for the 96, ou simplesmente JFT96, não acaba aqui. As evidências expostas ontem não são novas; estavam intencionalmente ocultas. Além das 96 mortes, é preciso punir pela alteração de provas e depoimentos. Não basta um pedido de desculpas do primeiro-ministro.

A causa não é apenas do Liverpool. A adesão à campanha é considerável. Ontem, até torcedores do Everton participaram da vigília em nome das vítimas de Hillsborough. O técnico do Liverpool, Brendan Rodgers, cumprimentou os fãs dos Toffees pela postura. Eric Cantona, símbolo máximo da rivalidade entre Manchester United e Liverpool, é outro a apoiar a iniciativa.

Don’t buy The Sun. Quatro dias depois da tragédia, o Sun publicou o que considerava “a verdade” sobre Hillsborough, afirmando que a culpa foi dos torcedores. Hoje, o jornal assumiu o equívoco, mas não deve ganhar o perdão dos fãs do Liverpool, que há 23 anos boicotam o Sun. A impressão é de que a publicação, de péssima imagem na Inglaterra, pediu desculpas porque não havia alternativas.

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segunda-feira, 20 de agosto de 2012 Debates, Premier League | 22:52

As armadilhas da estreia

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Três meses de férias, elencos renovados e treinadores estreantes. Diante dessas condições, é natural que a primeira rodada de qualquer campeonato europeu receba uma importância desproporcional. Também na Inglaterra, a repercussão dos resultados é enorme, como se uma vitória na estreia resolvesse todos os problemas ou uma derrota causasse danos permanentes. Mas, na prática, não é assim. Vale lembrar que a grande surpresa das primeiras rodadas de 2011-12 foi o Wolverhampton, que acabou rebaixado. Para ir (bem) mais longe, em 1984-85, o Everton perdeu por 4 a 1 para o Tottenham na estreia, em Goodison Park, recuperou-se prontamente e venceu o campeonato.

O caso do QPR é outro bem curioso. No sábado, em Londres, os Hoops foram completamente dominados e goleados por um inspirado Swansea: 5 a 0. A derrota indica “apenas” que Mark Hughes terá bastante trabalho para acertar a equipe, que recebeu oito reforços, mas não o condena ao rebaixamento com tantas (37) rodadas de antecedência. O QPR também foi atropelado em casa na abertura de 2011-12, quando sofreu 4 a 0 do Bolton. Ironicamente, mesmo com inúmeros problemas durante a campanha, o clube londrino escapou da queda, ao contrário de seu algoz na estreia.

O próprio Swansea “enganou” os mais precipitados na temporada passada. Nas primeiras rodadas, foi goleado pelo Manchester City, empatou duas vezes em casa e marcou seu primeiro gol apenas na quinta partida. Em seguida, o clube galês superou o início complicado e, pelo estilo, transformou-se na sensação da Premier League, construindo as fundações para o time que goleou o QPR há dois dias.

Fellaini, imparável contra o Manchester United

Criticados por derrotas na primeira rodada, Tottenham (Newcastle, 2 x 1) e Liverpool (West Brom, 3 x 0) não têm de entrar em pânico. Na estreia oficial de André Villas-Boas, o Tottenham controlou o Newcastle durante o primeiro tempo em St. James’ Park e poderia ter vencido o jogo através de Sigurdsson e Bale. Apesar dos erros defensivos e do resultado assustador, os Reds também começaram bem a partida, completaram 89% dos passes (mais do que em qualquer outro jogo de 2011-12) e perderam várias chances com Suárez. Sob novas direções, ambos precisam de ajustes e paciência – sobretudo o Liverpool, que tem tabela ingrata pela frente –, mas não há razão para tanto alarmismo.

O mesmo vale para o Arsenal, que empatou sem gols com o Sunderland no Emirates. A despeito da ótima atuação do estreante Santi Cazorla, faltou contundência ao ataque. Por outro lado, o time ainda vai evoluir muito, com a adaptação de Giroud ao estilo de jogo, os retornos de Wilshere e Chamberlain e a provável contratação de um substituto para Song. Não custa recordar a melhora substancial do Arsenal durante a temporada passada, que começou de maneira trágica para o clube, com direito a derrota por 8 a 2 para o Manchester United na terceira rodada.

Apesar das goleadas de Swansea e Fulham (Norwich, 5 x 0), a atuação mais notável da rodada foi do Everton, que venceu o Manchester United por 1 a 0 em Liverpool. Além do grande desempenho coletivo, houve destaques individuais, como Fellaini, que dominou a partida como meia ofensivo, e Osman, um dos jogadores mais subestimados da Inglaterra. Resta saber quais primeiras impressões vão sobreviver ao tempo. Como escreveu Paul Tomkins em sua coluna, o campeonato não é uma prova de 100 metros, mas uma maratona. Na Premier League, Stephen Kiprotich supera Usain Bolt.

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